quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Igual a você

Igual a Você é uma comédia idealizada pela produtora Beta Leporage sobre nossas doenças cotidianas. A peça pode ser considerada um subproduto, ou uma gestald a ser concluída a título de honra. Há dez anos, Beta encomendou de inúmeros autores esquetes que falassem sobre nossos medos, anseios e distrações da vida moderna. Nossos vícios, psicopatias e mágoas. O nome da peça era "Síndromes - Loucos como Nós". Porém, por um golpe do destino, após um ensaio mal sucedido e a mando da amiga Zezé Polessa - que estava no elenco - Miguel Falabella pediu uma semana e escreveu a toque de caixa, com Maria Carmem Barbosa, a comédia que ficou 2 anos em cartaz entre São Paulo, Rio de Janeiro e viagens. Autores demitidos, direção demitida... Uma mudança completa a pouco tempo da estreia. Assim é o teatro. Na época, quando questionado sobre o destempero da situação, Falabella foi claro: "Só não queria ver a minha amiga perder o apartamento". Seria tão ruim assim a primeira versão da peça, Miguel?! Bem, algum tempo depois, Beta surge com este singelo Igual a Você, que mantêm em seu DNA a premissa original. Simples, direto e muito divertido, o espetáculo apresenta o que há de mais cativante na comédia carioca: seu deboche e atores de ginga popular. Camila Morgado, afeita a papéis dramáticos no cinema e na TV já havia provado que sabia fazer rir em recente montagem de "Doce Deleite". Anderson Muller é um ator coringa, apto a desenvolver tudo o que lhe oferecerem com muita competência. Já Carmem Frenzel é a grande surpresa da noite. Em substituição a excelente Bia Nunes, Carmem demonstra impagável timing cômico, difícil mesmo de encontrar por aí, principalmente quando em cena como uma diva de ópera, que ao lado da amiga neurótica, não consegue encontrar lugar para sentar sem que haja uma corrente de ar. A comédia é um apanhado. Pra divertir mesmo. Sem grandes momentos, mas com grandes interpretações e texto eficiente. O público parecia rir muito. Porém, no final, fui eu o único a levantar para aplaudí-los. Povo estranho...
Residência às traças de senhora cubana, em Havana. Foto de Robert Polidori.

Denise Stoklos

Hoje lembrei de Denise Stoklos. Estava no carro batendo um texto de um monólogo escrito há quatro mãos durante quase 4 anos e fiquei impressionado o quanto esta mulher foi importante para minha educação teatral. Tinha pouco mais de 10 anos quando a vi fazendo caretas e distribuindo sua mímica por entre alguma plateia de TV. Fiquei maravilhado. Quem era essa figura estranha que me chocava? 15 anos depois tive o privilégio de conhecê-la durante a comemoração dos 40 anos de carreira da atriz, numa compilação de seus trabalhos mais notáveis: Mary Stuart, Vozes Dissonantes, Calendário de Pedra e Louise Bourgeois. Estava em processo de escrita quando Mary Stuart explodiu na minha frente, me fazendo rever tudo o que achava que sabia sobre comédia, monólogos, teatro. A atriz interpretava a clássica história de Mary Stuart sob viéis cômico, popular, escrachado e por isso, encantador. Rainha Elizabeth virava um monstro imbecil enquanto Mary Stuart agonizava na cadeia por querer discutir o teatro e sua função. Eram cativantes as quebras de decoro: " - Como é difícil fazer teatro moderno!" - entrava a atriz que se desdobrava em inúmeros personagens. Denise me fez rever a trajetória da dramaturgia poética, do texto jogado fora, das mensagens potentes em meio a explosões de gargalhadas e o deboche do teatro impostado. Teatro não deve ser impostado. Não deve estar distante de seu público, isso é coisa de "mantenedor de arte", não de artista/público. Somente Dario Fo e sua Franca Rame haviam me emocionado tanto com sua dramaturgia. Devo a Denise e a estes poucos a criação finalmente terminada. O texto do monólogo, batido em pleno engarrafamento, já tem vida própria. Tem ritmo e ação. E modéstia a parte, é muito bem escrito.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

tá foda



sem coragem de mudar o mundo. um artista cagão. entregue a vida da burguesia, apegado a família aristocrática, sem coragem de invadir o próprio mundo e rasgá-lo. A necessidade imperativa de irrompê-lo esbarra na limitação psico-social a qual ele está entregue. A limitação que só era rompida ao entregar-se de rosto e alma ao sexo de sua amante doidivana que teve coragem, parece sugir cada vez mais como um muro instransponível de lugar, era, ou planeta. o homem mais fraco é aquele com inveja de sua mulher. ele chupa o seu sexo com uma necessidade atávica de sugar o que não é dele na carne e em vida. ninguém suporta um fraco, diria esta mulher, antes de virar-lhe as costas.

dominado, entregue, sem personalidade clara. um homem de dar pena. sem dignidade, sem via onde expor o que mais sente. "coitado". "coitado", diz o passante na rua, observando o corpo semi adomercido entregue ao asfalto quente.